Movimento social transforma imóvel abandonado em refúgio con
Ocupação liderada pelo Movimento de Mulheres Olga Benário busca preencher lacunas do Estado no acolhimento a vítimas de violência doméstica na capital mato-gros
Ocupação liderada pelo Movimento de Mulheres Olga Benário busca preencher lacunas do Estado no acolhimento a vítimas de violência doméstica na capital mato-grossense.
Em um cenário onde os índices de feminicídio em Mato Grosso apresentam crescimento contínuo, o Movimento de Mulheres Olga Benário inaugurou, no dia 9 de agosto, a Casa da Mulher Trabalhadora Tereza de Benguela , em Cuiabá. O espaço, localizado no bairro Bandeirantes, na região central da capital, ocupa um imóvel da União que estava abandonado há pelo menos uma década. A iniciativa visa oferecer suporte essencial a vítimas de violência doméstica, suprindo demandas que, segundo as organizadoras, não têm sido atendidas pelo poder público.
O projeto é conduzido por um grupo de jovens mulheres, incluindo as estudantes Yasmin Carolina, 22, Mariana Nobre, 23, e Rayssa Piovani, 24, além da professora Juliana Borges, de 28 anos. A escolha por uma liderança jovem reflete o perfil das estatísticas atuais: desde 2024, a faixa etária de 25 a 29 anos concentra o maior volume de ocorrências, seguida pelo grupo de 18 a 24 anos. “Precisamos urgentemente de intervenção, senão seremos as próximas. Esse é o nosso medo” , desabafou Juliana.
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, o estado registrou um aumento de 11% nos casos de feminicídio em comparação ao ano anterior, totalizando 54 mortes. Com uma taxa de 2,7 óbitos para cada 100 mil mulheres, Mato Grosso ocupa a terceira posição no ranking nacional. Em 2026, o Observatório Caliandra já contabilizou 31 novos casos. Diante desse quadro, a casa pretende atuar no acolhimento inicial, oferecendo suporte jurídico, psicológico e social.
As coordenadoras relatam que muitas vítimas chegam ao movimento sem orientações básicas, como o uso de aplicativos de proteção ou o acesso à Defensoria Pública. “Muitas vezes a mulher sofre violência e não sabe que pode ter um advogado pela Defensoria, por exemplo” , pontuou Rayssa. O objetivo, segundo elas, não é competir com o Estado, mas ocupar as lacunas que deixam as mulheres vulneráveis. Futuramente, o espaço também planeja oferecer cursos de capacitação profissional para auxiliar na independência financeira das assistidas.
Atualmente, o imóvel passa por reformas graduais que dependem exclusivamente de doações. A necessidade mais urgente é a substituição da fiação elétrica e de torneiras, com um custo estimado em R$ 7 mil. O grupo aceita contribuições via Pix e materiais de construção. Apesar da estrutura precária após anos de abandono, a localização estratégica no bairro Bandeirantes facilita o acesso via transporte coletivo, sendo considerada mais acessível do que a sala de acolhimento instalada no Hospital Municipal de Cuiabá (HMC).
O nome do projeto homenageia Tereza de Benguela, líder quilombola que, no século 18, comandou o Quilombo do Quariterê, na fronteira com a Bolívia. A escolha simboliza a resistência e o modelo de gestão coletiva, inspirado no conselho que a rainha estabeleceu em seu território. “O quilombo da Tereza tinha uma característica muito interessante, que se assemelha ao que conhecemos hoje como parlamento: as decisões eram tomadas por meio de reuniões e debates” , explicou Rayssa.
A ocupação, que conta com o apoio de coletivos como a União da Juventude Rebelião e o Movimento Luta de Classes, não se define como uma ONG convencional. O grupo enfatiza que a iniciativa é uma medida extrema de intervenção social. Este é o primeiro caso de ocupação do Movimento Olga Benário em Mato Grosso, embora a entidade já mantenha 16 unidades com a mesma finalidade em outras regiões do país.
Surpreendentemente, a recepção da vizinhança tem sido positiva. Moradores relataram alívio com a ocupação, pois o imóvel abandonado era frequentemente utilizado para atividades ilícitas, gerando insegurança na região. Muitos vizinhos têm colaborado com a limpeza e doações. As coordenadoras reafirmam que, embora aceitem auxílio, priorizam a autonomia política e financeira, mantendo o foco na denúncia de negligências estatais e na proteção da vida das mulheres.
Fonte: rdnews.com.br