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Morador de Lisboa cria plataforma para monitorar tráfego aér

Com tecnologia própria e inteligência artificial, um morador de Lisboa desenvolveu um sistema que rastreia voos, ruídos e vibrações causadas por aviões sobre a cidade.

No centro de Lisboa, a rotina dos moradores é frequentemente pontuada pelo som das turbinas. Devido à localização do Aeroporto Humberto Delgado, inserido em uma área densamente povoada, o tráfego aéreo tornou-se parte integrante da paisagem urbana. Para muitos, como António Boaventura, o fenômeno é uma constante desde a infância, embora o volume de aeronaves tenha crescido significativamente nos últimos anos.

Foi justamente essa convivência diária que motivou Boaventura a criar o Lisbon Finals , uma plataforma digital dedicada a contabilizar e analisar os voos que cruzam os céus da capital portuguesa. O projeto, que começou como uma iniciativa curiosa, evoluiu para um sistema complexo que utiliza inteligência artificial para coletar dados precisos sobre altitude, velocidade, níveis de ruído e até vibrações estruturais causadas pelas aeronaves.

O sistema, operado a partir do terraço da residência do criador, funciona de forma totalmente autônoma. Boaventura, que possui formação em gestão empresarial e experiência internacional, investiu cerca de mil euros na montagem da estação física. O objetivo central é democratizar o acesso a informações sobre o tráfego aéreo, disponibilizando os dados gratuitamente para cidadãos, associações e entusiastas da aviação.

Desde a primeira medição, realizada em 3 de maio, a plataforma já registrou mais de 39 mil voos. O sistema permite identificar números de voos, companhias aéreas e até visualizar imagens das aeronaves, com atualizações constantes. Segundo o autor, o projeto mantém uma postura de neutralidade, focando apenas na entrega de dados técnicos que permitam uma análise objetiva da situação.

Um dos aspectos mais relevantes do monitoramento diz respeito ao tráfego noturno, que é alvo de restrições legais. O Aeroporto Humberto Delgado possui limitações entre a meia-noite e as 6h da manhã, com um teto de 91 movimentos semanais e um máximo de 26 por noite. Boaventura, que viveu períodos em outros países, expressou surpresa com a intensidade dos voos noturnos em Lisboa, algo que considerava mais restrito em outras capitais europeias.

Os dados coletados pelo Lisbon Finals apontam para possíveis violações dessas normas. Apenas no mês de julho, foram contabilizados 1.477 voos entre as 23h e as 6h59. Deste total, a plataforma identificou 397 como violações do período regulamentado pela Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC), sendo que 207 foram classificadas como "violações críticas", com níveis de ruído superiores a 98,9 decibéis.

O impacto do ruído aeronáutico é um tema recorrente em debates ambientais. A associação Zero tem alertado sobre os efeitos nocivos à saúde da população e criticado a eficácia do Plano de Ação de Ruído (PAR) 2024-2029. Segundo a organização, o plano atual é insuficiente, destacando que cerca de 63.879 pessoas são expostas a níveis superiores a 55 dB(A) durante o período noturno na área de influência do aeroporto.

Para a associação, o cenário em Lisboa é alarmante, afetando um número de pessoas muito superior ao observado em grandes hubs como o Aeroporto de Madrid. A Zero defende uma revisão profunda das medidas de mitigação e a aceleração dos processos que permitam, futuramente, o encerramento das operações no Aeroporto Humberto Delgado.

A solução definitiva para o problema do ruído urbano em Lisboa está vinculada à construção do novo Aeroporto Luís de Camões, em Alcochete. A previsão é que a nova infraestrutura entre em operação apenas em 2037, momento em que as atividades no aeroporto central deverão ser encerradas, encerrando um longo capítulo de convivência entre a aviação comercial e as zonas residenciais da capital.

Fonte: pt.euronews.com