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Malta: da herança de Caravaggio à Bienal de Gwangju, artista

Com uma nova cena artística em ascensão, criadores malteses rompem com a tradição barroca e levam projetos contemporâneos para o cenário internacional, como a Bienal de Gwangju.

Julien Vinet convida a observar o crepúsculo. O sol, ao se pôr sobre as construções de calcário, inunda o estúdio que divide com sua parceira criativa, Sam Alekksandra, com tons de laranja e vermelho. Nas Três Cidades de Malta, onde as paredes desbotadas exibem cartazes de eventos de poesia, o artista francês — radicado no país há uma década após passar oito anos no Japão — encontra o que chama de “beleza obsoleta”. Para o duo, que compõe o coletivo Ponks, a liberdade criativa floresce justamente nessa condição de Malta como um território de transição.

Essa autonomia artística é um fenômeno relativamente recente no arquipélago. Durante longo período, os criadores locais enfrentaram escassez de galerias e poucas oportunidades de exposição. Contudo, o cenário atual, impulsionado por novas instituições, pela Bienal de Malta e por uma maior projeção internacional, apresenta uma face renovada. Malta, um ponto de encontro de influências africanas, mediterrâneas e britânicas, possui uma identidade singular, mas que por muito tempo esteve estritamente vinculada ao legado barroco.

A predominância do barroco, frequentemente citada como a única forma de “arte séria” no país, começa a ser questionada. Embora a obra-prima de Caravaggio, “A Decapitação de São João Batista”, na Catedral de São João, continue sendo um pilar cultural, novos espaços como o museu nacional de arte contemporânea MICAS e a galeria Valletta Contemporary estão expandindo os horizontes. Fundada pelo arquiteto Norbert Francis Attard, a Valletta Contemporary ocupa um armazém secular e funciona como um centro de experimentação, embora opere sob modelos de financiamento distintos dos grandes centros globais, como Londres ou Nova York.

Chetcuti, curadora de exposições no espaço, ressalta que a dinâmica local evita a concentração de inventário, priorizando o apoio público. Attard, por sua vez, expande sua atuação para além da capital, transformando sua residência em Gozo em um arquivo público e centro de residência artística. Para ele, a criatividade não se limita à produção de objetos, mas à capacidade de reinventar formas de expressão ao longo da vida.

Atualmente, Vinet e Alekksandra preparam, em colaboração com o artista sonoro Michael Quinton, a participação de Malta na Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul. O pavilhão, intitulado BEJN / In-Between , propõe um diálogo entre as duas nações através de instalações que exploram a memória e o conflito. Attard contribui com uma estrutura inspirada no sistema coreano Obangsaek e nas festas maltesas, enquanto os Ponks apresentam o “Rope Temple”, uma teia de cordas que entrelaça poesias de autores de ambos os países, evocando tradições marítimas e rituais sagrados.

A dimensão sonora do projeto fica a cargo de Quinton, que utiliza dados e gravações de campo para criar paisagens sonoras imersivas. O artista busca capturar o que chama de “momento presente”, preenchendo as lacunas invisíveis da informação. Para Alekksandra, a Bienal de Gwangju possui um significado especial, dado o histórico da cidade como um centro de resistência política liderado por escritores e poetas, uma realidade que ressoa com sua própria trajetória.

Alekksandra recorda que a poesia tornou-se sua ferramenta de expressão após o trauma do assassinato da jornalista Daphne Caruana Galizia, em 2017. Ela destaca que a arte permite uma comunicação que transcende as barreiras linguísticas, algo que o coletivo Ponks vivencia constantemente em Malta. Para Vinet, a força do país reside justamente nessa diversidade contida em um pequeno território, um “entremeio” geográfico e cultural que, longe de ser uma limitação, serve como motor para uma cena criativa cada vez mais dinâmica e resiliente.

Fonte: pt.euronews.com