A persistente banalização da dor feminina nos consultórios m
A normalização de sintomas intensos em mulheres atrasa diagnósticos de doenças como a endometriose, impactando a qualidade de vida e a saúde reprodutiva.
A normalização de sintomas intensos em mulheres atrasa diagnósticos de doenças como a endometriose, impactando a qualidade de vida e a saúde reprodutiva.
"É perfeitamente normal sentir dor", "isso faz parte de ser mulher" ou "quando você tiver filhos, o incômodo passa". Essas frases, frequentemente ouvidas em ambientes familiares e até médicos, compõem a trajetória de inúmeras pacientes que buscam ajuda profissional após anos de um sofrimento que jamais deveria ter sido naturalizado. Muitas mulheres atravessam a adolescência acreditando que desmaiar durante o período menstrual é um evento comum, enquanto outras moldam suas vidas em torno de uma dor crônica, deixando de trabalhar, estudar ou manter relações sexuais para se adaptar a um desconforto que, por muito tempo, não recebeu a devida explicação clínica.
O cenário torna-se ainda mais crítico quando, antes de obterem um diagnóstico preciso, essas pacientes são rotuladas como "sensíveis demais", portadoras de baixa tolerância à dor ou, pior, que o problema tem origem puramente emocional. Embora a medicina tenha evoluído significativamente em tecnologia e tratamentos, ainda existe uma lacuna importante na forma como as queixas femininas são acolhidas. A dor, por ser subjetiva e não aparecer em exames laboratoriais como um dado numérico absoluto, acaba sendo subestimada, o que não retira sua veracidade ou seu impacto devastador na rotina.
A endometriose é um dos exemplos mais emblemáticos dessa negligência. A condição, que atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva globalmente, pode causar cólicas severas, dor pélvica crônica, desconforto durante o ato sexual e alterações intestinais ou urinárias. Mesmo com sintomas tão claros, o caminho até a confirmação da doença pode levar anos. É fundamental distinguir o desconforto leve, que pode acompanhar o ciclo, de uma dor incapacitante que retira a mulher de suas atividades diárias.
Se uma adolescente precisa faltar às aulas mensalmente por não conseguir sair da cama, ou se uma mulher adulta depende de analgésicos potentes para cumprir sua jornada de trabalho, o quadro exige investigação rigorosa. A normalização desses episódios traz consequências graves, pois, enquanto o diagnóstico é postergado, a paciente segue enfrentando prejuízos em sua produtividade, em seus relacionamentos afetivos e em seu bem-estar emocional.
No que tange à fertilidade, a endometriose merece atenção especial. Embora nem toda paciente com a doença apresente dificuldades para engravidar, o acompanhamento médico precoce é essencial para avaliar cada caso e discutir, quando necessário, estratégias de preservação da fertilidade. Contudo, é um erro limitar a saúde feminina apenas à capacidade reprodutiva. Uma adolescente ou uma mulher que não deseja ser mãe merece o mesmo rigor no tratamento de suas dores, pois a qualidade de vida é um desfecho de saúde por si só.
Ouvir a paciente não significa, contudo, diagnosticar automaticamente toda dor pélvica como endometriose. O papel do profissional é reconhecer a legitimidade da queixa, realizar uma anamnese detalhada e investigar as diversas condições ginecológicas e não ginecológicas que podem mimetizar sintomas. A tecnologia atual, com exames de imagem avançados, permite diagnósticos mais precisos sem a necessidade imediata de cirurgias, mas nenhum recurso tecnológico substitui a escuta ativa.
É urgente educar as novas gerações para que compreendam o próprio ciclo menstrual como um indicador de saúde, e não como um fardo a ser suportado em silêncio. Famílias e profissionais de saúde precisam abandonar o preconceito de que o sofrimento é uma característica intrínseca ao feminino. A mulher que busca atendimento não precisa provar que sua dor é real; ela precisa ser ouvida. A verdadeira transformação na saúde da mulher começa quando paramos de questionar se ela está exagerando e passamos a investigar, de fato, a origem do seu sofrimento.
Fonte: midianews.com.br